O dia 24 de dezembro, véspera do Natal, tinha sido um dia daqueles em que, intuitivamente, Helena sabia que alguma surpresa guardava.
Foi ao trabalho, onde, ao invés de trabalhar, assistiu à Across the Universe. No caminho de volta para casa, deu carona pra uma senhora que, sem mais nem menos, começou a lamentar o destino da filha que se casara com um louco aos 15 anos e hoje apanhava calada todos os dias na frente dos filhos. Constrangida pelo trágico destino daquela família, Helena sentiu uma solidária obrigação de também relatar alguma desgraça particular e lembrou-se de um ex-namorado, com quem tivera muitas brigas e diferenças.
Chegando em casa, abriu a porta e, alegremente, como era de costume, cumprimentou Dona Ritinha, que fazia a faxina de rotina:
_“Bom tarde, Dona Ritinha!”, disse Helena, que escutou estalar em seus ouvidos: _“Dona Ritinha?? Dona de quê? Dessas perna e desses braço que limpa a sujeira da sua casa??
Saindo pela porta, Dona Ritinha, que sempre atravessara aquela passagem com ar de resignação, completou, justificando o rompante de lucidez: _“E é isso mesmo que a senhora tá ouvindo. A gente só descobre o jeito da gente mesmo, quando não dá conta de ser de outro jeito”.
Helena sentiu seu coração palpitar e fazer correr o sangue em seu corpo. Sequer conseguiu reagir àquela cena.
Como se não bastasse para aquela tarde, peeeeen: alguém tocou a campanhia. Helena foi atender e ouviu pacientemente um pedido de esmola: _ “Eu preciso de uma ajuda para uma família de pessoas com leucemia, qualquer alimento não perecível serve”, disse o rapaz desconhecido à porta.
Helena respondeu: _“Vou ver se tem alguma coisa.”
Voltando para dentro de casa, olhou no armário da cozinha e pensou: “Hum, só tem esse pacote de feijão fechado. Acho que não sou responsável pela fome do mundo. Dar essa esmola só vai contribuir para a sobrevivência dessa situação de desigualdade.”
Voltando à porta, disse ao rapaz: _“Infelizmente, não fiz compras e não tenho nada”.
O rapaz insistiu: _“Qualquer coisa: uma barra de sabão, um pouco de arroz”.
_“Huum, então, deixa eu ver de novo”, respondeu Helena, que retornou em seguida com a barra de sabão na mão e foi surpreendida pela atitude do rapaz que pegou o pacote sem fazer o menor gesto de gratidão e saiu.
Helena o interpelou: _“De nada!”
E ele respondeu: _“Por nada!”
Chocada com a atitude do rapaz, Helena voltou para dentro de casa, atendeu o telefone que tocava e ficou sabendo pela vizinha que Dona Ritinha, aparentemente uma hipocondríaca que tinha perdido o pai aos seis anos de idade com sete derrames, tinha mais histórias pra contar... Depois da morte do pai, a mãe tornou-se uma desvairada prostituta que se arranjava e arranjava os filhos como podia. A irmã, abandonada pelo marido que se engalfinhou com a vizinha, perdeu o filho de sete anos em sete dias por causa de um câncer que pensavam ser verme. A família, depois disso, nunca mais fora a mesma e as desgraças pareciam se somar exaustivamente na vida de Ritinha até o dia em que ela encontrou Jesus. Foi quando passou a pensar que talvez nada no mundo material tivesse mesmo fundamento e se libertou em partes da marginalidade em que se inseria, passando a lutar bravamente para conseguir sobreviver com os três filhos que lhe legara o marido, também falecido.
Nesse ponto da história, Helena já não podia mais ouvir aquela tragédia de vida e se perguntava o que tinha haver com aquilo tudo. Intoxicada da desgraça alheia, pensou por um minúsculo segundo em cometer suicídio por causa dos problemas aparentemente insolucionáveis da humanidade, mas este seria um gesto muito grandioso para o tamanho de sua consciência e compaixão.
Helena desligou o telefone e desejou profundamente voltar para sua vidinha. Não sabia - e ainda não sabe - o que tem haver com tudo isso ou quanto vale sua participação na história dessas pessoas que não vivem, mas apenas sobrevivem à espera da ressurreição.